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Crônicas
 
Nessa seção você vai curtir minhas crônicas (e outros tipos de textos) sobre qualquer tipo de doidera que deu vontade de escrever....
 
Na verdade desenterrei estes textos da década de 80, portanto se estiverem meio desatualizados, sorry...
 
Para reforçar o time, também coloquei umas ótimas crônicas do meu buddy Zeca Salgueiro...
 

 

Crônicas Alexandre

 

No Elevador

 

Edifício do centro da cidade. 18:00 h. Saída de trabalho. Elevador lotado. Personagens: o moleque sarrista, o paquerador, a gatinha, a claustrofóbica religiosa, o advogado machão, o bichinha e o síndico.

 

TOOOMM !!

 

Paquerador: O que foi isso ?

 

Sarrista: Quem peidei ? Não sei quem fui. Ah! Ah!

 

Advogado: O elevador parou.

 

Claustrofóbica (gritando): Nós vamos morrer !!

 

Advogado: Calma minha senhora, logo sairemos daqui.

 

Claustrotóbica (gritando): Ave Maria, cheia de graça ...

 

Gatinha (em começo de choro): Sniff, Sniff...

 

Paquerador (abraçando gatinha): Calma, fofa, se tivermos que morrer...

 

Gatinha (já em choro desenfreado): Buáá, Buáá !

 

Bichinha (olhando para o advogado machão): Bom, pelo menos morreremos em boa companhia...

 

Advogado: O que o senhor quer dizer com isso ?

 

Bichinha: Nada, gato !

 

Claustrofóbica (gritando): Nós merecemos morrer justamente por esta falta de vergonha !! Glória, Glória, Aleluia, Socorro !!

 

Advogado: Olha aqui, seu rato ...

 

Bichinha: Tatá para os íntimos.

 

Advogado: Eu lhe partiria a cara se não fosse o nosso atual problema.

 

Sarrista: Não bate que ele gama ! Ah! Ah!

 

Paquerador (dando uns beijinhos nas bochechas da gatinha): Calma gente, daqui a pouco eles acionam a segurança. Temos tempo ...

 

Sarrista: Isso se o elevador não parou por causa de algum incêndio. Ah! Ah!

 

Claustrofóbica (gritando): Nós vamos morrer !!

 

Gatinha: Buáá !! Buáá !!

 

Paquerador (cantando e mordendo a orelha da gatinha): Calma nenê, encosta sua cabecinha no meu ombro e chora...

 

Sarrista (olhando os dois e imitando filme pornô): Uh! Baby! So good!!

 

Advogado: Peraí gente, estou ouvindo passos...

 

Claustrofóbica (gritando): É o anjo da morte vindo nos buscar !!

 

Paquerador: De chinelo ?

 

Bichinha: Que cafona...

 

Advogado: É o síndico !!

 

Claustrofóbica (gritando): Nós ainda vamos morrer !!

 

Gatinha: Buáá!! Buáá!! Buáá!!

 

Sarrista: Com esse síndico eu também acho.

 

Paquerador (pondo a mão debaixo da blusa da gatinha): Calma pitchula !

 

Síndico (do lado de fora): Vocês estão bem ?

 

Sarrista: Não! Estamos todos mortos! Ah! Ah!Ah!

 

Claustrofóbica (gritando): Reze uma missa por mim quando eu me for !!

 

Bichinha: Please gente, deixa o bofe nos salvar!

 

Advogado: Sr. Síndico, o quê aconteceu ?

 

Síndico: Não sei direitcho não seu dotô. Só sei que lá nus controle do elevadô tá tudo peganu fogo.

 

Advogado: Nós vamos morrer !!

 

Claustrofóbica (com voz calma): Eu te disse.

 

Depois de 12 horas no elevador escuro, os 6 famosos personagens foram resgatados pelos bombeiros. Nas despedidas, apesar de todo este tempo junto, apenas poucas palavras foram trocadas.

 

Advogado (com cara de feliz): Tchau Tatá, me liga, ok ?

 

Bichinha (com cara de séria): Vou pensar no seu caso.

 

Sarrista (com cara de quem chorou muito): Sniff,Sniff. Pensei que íamos morrer.

 

Gatinha (com cara de satisfeita sexualmente): Ah! Ah! Ah! Ah!

 

Claustrofóbica (com cara de sacana olhando para o paquerador): Você tem compromisso para mais tarde ?

 

Paquerador (com cara de acabado sexualmente): Hoje não vai dar.

 

 

Palavrinhas

 

- Olha querido, este cantor na TV... Eu sou uma fã invertebrada dele.

 

- Por quê ? Você é uma fã sem osso ?

 

- Como assim ?

 

- Acho que você quis dizer fã inveterada, né ? Esta sua mania de trocar as palavras me deixa alternado !!

 

- Alterado, você quer dizer...

 

- E o que eu disse ?

 

- Alternado. Você disse que a minha mania te faz trocar de lugar com alguma coisa; ou pelo menos é isso que a palavra alternado quer dizer. Bem feito! Quem mandou meter o fedelho aonde não foi chamado?

 

- Bedelho. É bedelho. Você é daquelas que deve falar pobrema, manicômbio, né ?

 

- E você deve ser daqueles que acha que homogêneo é um gênio gay.

 

- E quantas vezes já não ouvi você dizer “Amor, me traz da padaria um pão de glúteo ? O certo é pão de glúten. Por acaso existe pão de bunda?

 

- Você deve achar que esquadrão é uma quadra gigante que não é usada mais, não é mesmo ?

 

- Ah, é ? Era eu que achava que baixa combustão era uma nanica com os peitos grandes, né?

 

- Isso sem contar que você fala “menas”, “ambos os dois”...

 

- E você “entrar para dentro”, “subir para cima” ...

 

- E ...

 

- E ...

 

- Ah ! Ah ! Ah !

 

- Há ! Há ! Há !

 

- Ô querida, estamos brigando por coisa boba, né ? Te amo com todos seus defeitinhos.

 

- Desculpa, amor. Prometo que não vou mais ligar para estas bobeiras.

 

- Puxa vida ! Incrível quanta coisa a mente capta ...

 

- Mentecapta é a sua mãe !!

 

 

A Barata e o Final Feliz

 

- Argh !! Socorro !! Uma barata !!

 

- Aonde benzinho ?

 

- Ali ! Ali ! Mata ! Mata !

 

- Mas fofa, eu sou presidente da sociedade protetora dos animais; eu não posso fazer isso !

 

- Barata não é animal, é inseto !

 

- Mas é um ser vivo e todo ser vivo ...

 

- Por favor, sem discurso neste momento de perigo.

 

- Que momento de perigo ? É uma simples baratinha ...

 

- Gigante ! Do tamanho de um cachorro !

 

- Que exagero, benzão ...

 

- Exagero, é ? E o que você tá fazendo em cima da mesa também ?

 

- Eu ... é ... bem, eu vou aproveitar e trocar a lâmpada.

 

- Medroso ! Covardão ! Vai lá e mata ela !

 

- Vai você ! Eu não consigo ...

 

- Porque tem medo, né ? Até eu já matei uma barata na vida.

 

- Mas eu não. E a propósito você estraçalhou a barata semana passada. Eu contei no mínimo 18 chineladas.

 

- Eu tive que fazer aquilo, pela nossa segurança.

 

- A barata teve que ser reconhecida pela arcada dentária...

 

- Engraçadinho.

 

- Acho que até vão fazer o filme “Ghost - do outro lado da chinelada” estrelando Baratrick Swayze. Ah! Ah! Ah!

 

- Animal !

 

- Não, inseto ! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

 

- Meu Deus, é voadora! E tá vindo para cá!

 

- Ah! A...Socorro!! Socorro!!

 

TUM !! POFH !! CRACK !!

 

- Benzão, obrigado. Eu acho o maior “baratão” quando cê me salva.

 

 

No Consultório

 

- Doutor, por favor me ajude.

 

- Pois não. Qual é o seu problema ?

 

- Fazem dois meses que não menstruo. Não sei mais o que fazer... E além disso, uma criança, se este for o caso, está fora de minhas condições financeiras. Abortar nunca, pois a minha formação é católica. Por favor, doutor, me ajude.

 

- Isto é perfeitamente normal.

 

- O quê ? Eu lhe implorando ajuda e o senhor diz que o meu problema é perfeitamente normal ?

 

- Acredite em mim. A falta de menstruação, no seu caso, é perfeitamente normal.

 

- Por quê ?

 

- O senhor é homem.

 


Roteiro Humorístico para TV baseado na crônica

“O Dia Seguinte” de Luís Fernando Veríssimo.

 

Cena 1 – ( Mostra apartamento visto de fora )

 

Cena 2 – (Mostra, de cima, casal dormindo nús, cobertos apenas por um lençol, cada um virado para lados opostos do quarto. Acontece um barulho vindo da rua. Os dois tremem como se tivessem sido acordados pelo barulho, porém continuam na posição original.)

 

Cena 3 – (Close em um olho masculino se abrindo)

 

Cena 4 – (Close em um olho feminino se abrindo)

 

Cena 5 – (Mostra, de novo, casal visto de cima)

 

Cena 6 – (Mostra cara dele pensando) Meu Deus, como eu consegui beber tanto? A essa hora meu fígado já deve ter pedido demissão...Eu não me lembro de nada...A última coisa que eu me recordo é de estar numa janela desejando um feliz ano novo...

 

Cena 7 – (Mostra ele, com roupa bem passada e alinhada, falando num tom sutil, sem estar bêbado) Um bom ano novo para todos...

 

Cena 8 – (Mostra ele ainda pensando) Não, pera aí, não foi bem assim...

 

Cena 9 – (Mostra ele, com a roupa já um pouco amassada, falando num tom mais alto, já um pouco bêbado) Um bótimo ano novo para todos !

 

Cena 10 – (Ele ainda pensando) Ainda não...

 

Cena 11 – (Mostra ele, já sem camisa, todo descabelado, totalmente bêbado, gritando) Um ano do cacete para todo mundo !!!

 

Cena 12 – (Ele pensando) Assim....Como eu consegui beber tanto?

 

Cena 13 – (Mostra ela pensando) Meu Deus, como eu consegui beber tanto? Parece que eu acabei com a produção de champanhe até 3012...Onde eu tô? Só lembro de estar numa festa...

 

Cena 14 – (Mostra ela, bem arrumada, numa festa, olhando o relógio) 10:15. Quase ano 2000... Vou dar só um golinho para comemorar...(mostra ela dando apenas uma bicadinha).

 

Cena 15 – (Mostra ela, já alegre, falando alto e dançando) 11:30 ! Quase ano 2000, galera !! Vamos beber para comemorar....mas só um golinho para não dar vexame...(e bebe direto da garrafa de champanhe)

 

Cena 16 – (Mostra relógio marcando meia noite e dez)

 

Cena 17 – (Mostra ela, já bêbada, gritando e segurando quatro garrafas de champanhe no colo) Ninguém toca ! Essas belezinhas aqui são minhas ! Eu vou comemorar o ano 2000 com as minhas amigas aqui !!

 

Cena 18 – (Mostra ela pensando no quarto) Ai, que vexame...Como eu pude beber tanto?

 

Cena 19 – (Mostra casal, visto de cima, se virando um na direção do outro)

 

Cena 20 – (Mostra apartamento visto de fora como cena 1 e um grito dos dois vindo de dentro)

 

Cena 21 – (Ele, com cara de espanto) Quem é você? Daonde você veio? O que eu tô fazendo aqui?

 

Cena 22 – (Ela, com cara de espanto) Eu que pergunto: Quem é você? Daonde você veio? O que eu tô fazendo aqui?....E mais ainda: O que nós estamos fazendo pelados na mesma cama?

 

Cena 23 – (Mostra casal visto de cima. Eles, em silêncio, vão virando lentamente para olhar para cima. O rosto dele vai se tornando-se um sorriso malicioso e o dela vai transformando-se em uma expressão de quem fez besteira, até ela cobrir o rosto com as mãos)

 

Cena 24 – (Ele, virando-se para ela) Mas, e como eu cheguei no seu apartamento?

 

Cena 25 – (Ela, ainda com a mão no rosto) Esse não é o meu apartamento.

 

Cena 26 – (Ele) Então nós estamos aonde?

 

Cena 27 – (Ela, ainda com a mão no rosto) Não tenho a mínima idéia... Ai, que vergonha.....Qual seu nome?

 

Cena 28 – (Ele) Renato.

 

Cena 29 – (Ela, tirando a mão do rosto e estendendo para cumprimentar ele) Oi, Renato, eu sou a Roberta. Você tem um copo de estricnina para suicídio instantâneo?

 

Cena 30 – (Ele) Calma...Não é tão ruim assim...(virando o rosto dela para ele e chegando perto) Que tal nos conhecermos ainda melhor? (com cara de conquistador)

 

Cena 31 – (Ela, abanando o rosto como se sentisse cheiro ruim) E que tal uma balinha de menta?

 

Cena 32 – (Ele, voltando para trás) Hey, bafo de champanhe amanhecida também não é perfume francês, sabia?

 

Cena 33 – (Ela) Tá bom, desculpa. Vamos por partes. Aonde você foi passar o reveillon?

 

Cena 34 – (Ele) Num clube no centro.

 

Cena 35 – (Ela) E eu na casa de uma amiga no subúrbio.

 

Cena 36 – (Ele) Que amiga?

 

Cena 37 – (Ela) Patrícia. De Souza. Alta. Loira. Bonita.

 

Cena 38 – (Ele) Nunca vi mais gorda....Eu conheço uma Patrícia. Martins. Baixa. Morena. Feia que dói....

 

Cena 39 – (Ela) Nunca vi mais....feia.

 

Cena 40 – (Ele) Moro na zona Sul.

 

Cena 41 – (Ela) Zona Leste.

 

Cena 42 – (Ele) Hey, eu trabalho na zona Leste !

 

Cena 43 – (Ela) E eu na zona Sul.

 

Cena 44 – (Aparece o relógio mudando as horas, dando a impressão de que as perguntas demoraram várias horas)

 

Cena 45 – (Ele) Desisto !! Não temos nada em comum !...Moradia, amigos, hobbies.....nada ! Daonde a gente se conheceu para passar a noite?

 

Cena 46 – (Ela) Ainda estou sem idéia alguma....Já arranjou aquele copo de estricnina? Serve veneno de rato....

 

Cena 47 – (Ele, se achegando para o lado dela com sorriso maroto) Mas, pensando bem, porque importa saber como chegamos aqui? O que importa é que estamos nús....E numa cama....(já põe a mão no ombro dela) Estou tendo várias idéias para nós....(faz cara pensativa)

 

Cena 48 – (Fantasia 1: Aparece eles transando, porém numa cena cômica, com ela em cima dele cavalgando como se estivesse em um rodeio, gritando “Iiiiiiiirá” e com chapéu de cowboy na mão)

 

Cena 49 – (Ele pensando, com cara de quem está gostando das idéias)

 

Cena 50 – (Fantasia 2: Aparece ele, como se fosse um sultão, no meio de várias versões dela, todas servindo-o, dando uvas na boca, abanando, fazendo massagem, etc. Um detalhe: no canto está um eunuco que mais tarde será o dono da casa)

 

Cena 51 – (Ele pensando, com cara de quem está gostando das idéias)

 

Cena 52 – (Fantasia 3: Eles saindo de baixo dos lençóis e ela dizendo) Puxa! Não sei como a gente se conheceu, mas você foi o melhor amante que eu já tive na minha vida toda....Serei sua para sempre, meu mestre !

 

Cena 53 – (Ela, indignada) Oh ! Seu tarado ! Ah, é? Eu também estou tendo uma idéia também....

 

Cena 54 – (Fantasia dela: Aparece ela apertando um botão imaginário de  “eject” ao lado da cama)

 

Cena 55 – (Aparece ele saindo voando “catapultado” e gritando)

 

Cena 56 – (Ela) Como você tem coragem de me propor uma coisa dessas? A gente nem se conhece...

 

Cena 57 – (Ele) Nem se conhece? A gente dormiu junto, ficou horas falando sobre nós e o que é melhor: (faz cara maliciosa) A gente ainda tá pelado !!

 

Cena 58 – (Ela, irritada) Mas isso vai acabar ! Daqui este lençol que eu vou me trocar ! (puxando o lençol)

 

Cena 59 – (Ele, segurando o lençol) Hey ! E eu fico peladão aqui na cama? A gente nem se conhece direito....

 

Cena 60 – (Ela) Ah ! Agora na ameaça de ficar...Adão sem a parreira aí na cama, a gente nem se conhece, né?

 

Cena 61 – (Ele) Sabe como que é, né? A gente gosta de mostrar a obra quando ela está pronta e emoldurada, né? Rê,rê (dá um risinho sem graça)

 

Cena 62 – (Ela puxa o lençol, ao mesmo tempo que ele quase se mata para se cobrir com o travesseiro)

 

Cena 63 – (Ela, tirando um sarro) A sua obra é estilo minimalista, né? Ri,ri,ri....

 

Cena 64 – (Ele dá riso sem graça e quando ela vira, ele mostra a língua com se fosse criança)

 

Cena 65 – (Aparece os dois já acabando de se vestir, prontos para ir embora)

 

Cena 66 – (Ele) Pronto? Quer ir comer algo?

 

Cena 67 – (Ela) Quero....Meu estômago já está roncando...(escuta-se um ronco alto vindo da sala)

 

Cena 68 – (Ele, olhando para barriga dela) Uau ! Isso que eu chamo de fome...

 

Cena 69 – (Ela) Tem alguém na sala !

 

Cena 70 – (Os dois vão até a sala, onde encontram um cara gordo dormindo no sofá)

 

Cena 71 – (Ele, olhando para o gordo) Hey, esse cara é o meu eunuco !

 

Cena 72 – (Ela) Quê?

 

Cena 73 – (Ele) Ah, deixa para lá. Eu vou acordá-lo...

 

Cena 74 – (Ela) Não, é perigoso...

 

Cena 75 – (Ele) Mais do que,....tipo, ter passado a noite num apartamento estranho, com duas pessoas que poderiam ser..... o Jason e o Freddy Kruger e me retalhado em picadinhos?.....Vou acordá-lo !

 

Cena 76 – (Ele dá um cutucão no cara e esse levanta de uma vez só)

 

Cena 77 – (Mostra apartamento do lado de fora, como cena 1, com o som dos três gritando) Ahhhhhh!!!!

 

Cena 78 – (Ele) Quem é você?

 

Cena 79 – (Gordo acordando, todo amassado) Ah, desculpa pelo susto...Eu sou o Romão.... (pára e pensa) Não, Ramão....É, é por aí....Posso ir para minha cama? (levanta e vai indo cambaleando para o quarto)

 

Cena 80 – (Ele, apontando para o quarto?) Sua cama?

 

Cena 81 – (Gordo, nem respondendo e entrando no quarto) Que ano novo ! Esse começou do cacete !

 

Cena 82 – (Ela) Amigo seu?

 

Cena 83 – (Ele) Nunca vi mais gordo....realmente gordo !

 

Cena 84 – (Ela) Nem eu...Vamos?

 

Cena 85 – (Aparece eles saindo do apartamento, entrando no elevador e descendo para o térreo)

 

Cena 86 – (Ele) Até que foi interessante, né?

 

Cena 87 – (Ela) Também achei....

 

Cena 88 – (Aparece o elevador chegando no térreo, mas com os dois se beijando loucamente)

 

Cena 89 – (Aparece a mão dela apertando o botão para subir)

 

Cena 90 – (Aparece eles pondo a cabeça para dentro do quarto do gordo) Remão, meu amigo !!! Empresta o quartinho de novo?

 

 

 

Histórias de Poltrona

 

(Para melhor entendimento, o conto está dividido em: presente – a narração do personagem – e história – as cenas da história que o locutor está contando)

 

Cena 1 Presente – (Aparece personagem focalizado de frente, dos ombros para cima, porém sem identificar aonde o personagem está – apenas dá para perceber que ele está numa poltrona. Personagem começar a falar para a câmera, como se estivesse desabafando com um amigo) Cara, cansei de viajar de ônibus. Não agüento mais. Já passei por tantas que você nem acredita.....Ah! Você quer saber o quê eu já passei numa viagem de ônibus ? Eu te conto....

 

Cena 2 História– (Aparece ele sentado na poltrona esperando o ônibus partir. Voz do personagem começa a contar a história, ao passo que as cenas vão acontecendo) Estava eu esperando o ônibus partir, crente que eu tinha dado a maior sorte do mundo de ter o assento ao lado vazio....

 

Cena 3 Presente– (Locutor, olhando para câmera) Como a gente gosta quando o assento do lado vai vazio, né? Você é daqueles que reza 12 ave marias e 15 pai nossos para ir se esticando no banco vazio ao lado?....É, mas dessa vez não foi assim....

 

Cena 4 História– (Aparece gordão entrando cheio de bagagens, derrubando tudo em todo mundo) Voz do locutor: Pois é, mas naquele dia eu não dei muita sorte....Bom, entrou um sujeito, que, digamos assim, numa escala de nojeira de um a dez ele ganharia vinte e dois, entende?

 

Cena 5 História– (Gordão entrando na poltrona ao lado do locutor derrubando tudo nele) E aí, companheiro? Tudo certo? Apertadinho esse local, hein?

 

Cena 6 Presente– (Locutor) Me deu vontade de responder: Apertadinho? Porque você não comprou 18 poltronas para ficar MENOS apertado? Ou, então: Hey, fatso, porque você não alugou o Maracanã, pôs umas rodinhas nele e veio ? Ô irritação !! Enfim, o cara me incomodou. Mas o melhor estava por vir...

 

Cena 7 História– (Gordão) Hey, companheiro, você se incomoda se eu tirar o sapato? Meu pé está meio suado e eu não queria estragar meu sapato....

 

Cena 8 Presente– (Locutor) Mas estragar meu aparelho respiratório ele podia, né?

 

Cena 9 História– (Aparece gordão tirando o sapato)

 

Cena 10 História– (Mostra todos os passageiros do ônibus incomodados com o cheiro. Se abanando, resmungando, etc)

 

Cena 11 Presente– (Locutor com ar irônico) E o azedinho não parou não. Ele era

humanitário....queria dividir as posses com os outros.....

 

Cena 12 História– (Aparece gordão tentando fechar a cortina da janela e não conseguindo) Poxa, esse sol na cara está demais ! Quero tirar um cochilinho não consigo! (ele olha para a meia) Bom, quem não tem cão, caça com gato, certo? (e põe a meia nos olhos para cobrir o sol) Boa noite, companheiro ! (e inclina o banco para dormir)

 

Cena 13 História– (Aparece locutor com uma cara de nojo incomparável ao som bem alto do ronco do gordão)

 

Cena 14 Presente– (Locutor) Pois é...Olha o que eu já passei....E guia de ônibus então? Você já percebeu que coisas absurdas elas inventam só para passar o tempo?

 

Cena 15 História– (Aparece uma guia, mulher, bem ridícula e falando com a língua presa) Gente, vamos agora brincar de super bingo valendo essa pedra medicinal vinda de Macarroninha do Norte e que pode salvar a vida de vocês no caso de vocês pegarem uma doença super híper incurável? Ri, Ri, Ri....

 

Cena 16 Presente– (Locutor, pondo a mão na cara) Meu Deus....

 

Cena 17 História– (Guia) Que tal a gente se apresentar? Ri,Ri,Ri....Vem um por um e diz o nome, idade, do que mais gosta, se é casado, se está levando algum doce gostoso na mala, se já teve alguma doença venérea e se gosta de mulheres guias...Ri,Ri,Ri.... Você aí, do lado do gordinho azedo....Vem !

 

Cena 18 História– (Aparece o locutor levantando e indo para frente do ônibus, todo encabulado)

 

Cena 19 História– (Locutor com o microfone) Oi, meu nome é João...

 

Cena 20 História– (Guia, cortando ele) Ui, rima com garanhão...Ri,Ri,Ri...

 

Cena 21 História– (Locutor, bravo) Também rima com supetão. Bom, continuando...Meu nome é João, tenho 32 anos, sou do Rio de Janeiro e...

 

Cena 22 História– (Guia, cortando de novo) E quem você acha a mais bonita desse ônibus? Ri, Ri, Ri....(pondo a mão no ombro dele)

 

Cena 23 História– (Locutor, já puto) Bom, primeiro, aquela velhinha lá no fundo que parece uma uva passa. Depois a meia suada do meu amigo gordinho e depois você !! Satisfeita? (e sai deixando a guia com a cara de boba. Ela se recupera e fala no microfone, rindo) Antes da nossa dança de quadrilha no ônibus, mais alguém quer se apresentar?

 

Cena 24 Presente– (Locutor) Pois é, cada coisa, né? Ah! Lembrei de mais uma história....Essa eu chamo de “A menina dos gases”....

 

Cena 25 História– (Aparece mãe e menina de uns 16 anos no banco da frente do locutor. De repente, a mãe começa a cantar alto, depois de um pouco ela pára. Um minuto depois ela começa a cantar de novo. Quando pára começa a cochichar para a filha) Pára com isso ou todo mundo vai perceber !!!

 

Cena 26 História– (Locutor aproxima a cabeça para escutar o que ela está falando)

 

Cena 27 História– (Mãe, falando baixo) Tá com o intestino solto? Eu falei para não comer o pastel naquela parada do ônibus !!! Se você continuar soltando uns petardos nessa altura, o ônibus inteiro vai perceber !!!

 

Cena 28 História– (Filha, também falando baixo) Mas, mãe, eu não tô agüentando ! Aí vem mais um !!!

 

Cena 29 História– (Mãe cantando) Lá, lá, lá, lá, lá, lá....Eu tô ficando com a garganta seca de tanto cantar !! Tô parecendo caloura do Sílvio Santos aqui !!!

 

Cena 30 Presente– (Locutor) Ah!Ah!Ah! Vê o que eu tenho que agüentar?

 

Cena 31 História– (Filha) Não posso ir no banheiro do ônibus fazer o serviço?

 

Cena 32 História – (Mãe) Não ! O banheiro do ônibus é só para.....líquidos.

 

Cena 33 História– (Filha) Oooopa !!

 

Cena 34 História– (Mãe) Lá, lá, lá, lá, lá, lá.........Tá bom, vai, mas não olha na minha cara nunca mais !!! Te deserdei !!! Que vergonha !!! Vai de fininho e dá um jeito de ninguém perceber, hein? Seja discreta !!!

 

Cena 35 História– (Filha) Pode deixar !! (e sai para o banheiro)

 

Cena 36 Presente– (Locutor) E você já pode imaginar o que aconteceu, né?

 

Cena 37 História– (Close no pé do motorista do ônibus freiando com tudo)

 

Cena 38 História– (Guia comunicando os passageiros, tentando sorrir mas com nojo, ao mesmo tempo que funcionários de um posto entram com muitos baldes de água para desentupir o banheiro) Eu não gostaria de ser grosseira, mas vou avisar de novo que o banheiro do ônibus é apenas para líquidos....O tradicional número um....Ri,ri,ri.....

 

Cena 39 História– (Mostra flashes rápidos dos passageiros, inclusive o locutor, todos olhando feio para a menina e resmungando)

 

Cena 40 História– (Mostra menina se matando de rir e a câmera vai até o rosto da mãe, que está cantando alto com o rosto atrás da cortina de vergonha) Lá, lá, lá, lá, lá, lá....

 

Cena 41 Presente– (Locutor se divertindo) Ah!Ah!Ah!Ah! Vê o que eu passo nas viagens de ônibus? É por isso que eu parei com ônibus (nessa hora a câmera, que até agora não identificava aonde o locutor estava, começa a abrir o foco, mostrando que o locutor está na verdade em um ônibus, esperando para ele partir)

 

Cena 42 Presente– (Locutor, com ar irônico) Bom, essa é a última, prometo....

 

Cena 43 Presente– (Câmera, ainda abrindo o foco. O gordão entra no ônibus e o locutor fala como se já fossem grandes amigos) E aí, azedinho? Senta aqui....

 


Crônicas Zeca
 

TPM

 

Uma das coisas mais assustadoras nas mulheres – não, não estou falando de independência, orgasmo, etc – é a TPM.

Tensão pré-menstrual, mas para nós homens, pode significar: Tendência Para Matar; ou Toma Porrada Trouxa; ou ainda Tocou-Perguntou-Morreu!!!

Há remédios, ah, isso há. Mas elas não conhecem, ou dizem que não conhecem ou não precisam, pois, na realidade, não sabem que estão na “má fase”. Tá bom, tá bom, vou pegar leve, mas é covardia.

Se elas não sabem, muito menos nós. Só que nós não exigimos que elas saibam ou nos digam, e elas exigem que nós sim! Tudo!

Ainda não inventaram um detector de TPMs, infelizmente, e o mais próximo disso é uma agenda. É, uma agenda. Aí, você anota o dia que ela menstruou pela última vez, soma trinta dias, diminui três, eleva a terceira potência e tira a raiz quadrada, e mesmo assim não acerta porque nunca cai na mesma época, não há matemática que resolva.

Os sinais vão do mau-humor às vias de fato, passando crises de choro convulsivo – cuja razão foi ela ter perguntado se engordou e você ter olhado antes de responder não – a tentativas de homicídio com um depilador elétrico.

- Está se depilando em casa? Eu achei que voc... Que foi? Não. Peraí! Não! Nãããããoooo!!!!

Depois desse pequeno período – que ninguém sabe qual é – a TPM passa e elas querem que a gente adivinhe que passou e que elas estão carinhosíssimas e taradas, prontas pro que der e vier, e nós ainda na defensiva.

- Oi, amoooor.

- Oi.

- Vem cá.

- Já, já...

- Pode vir...

- Sei não...

E assim vai até que elas nos digam “você-não-liga-pra-mim” – assim, mecanicamente e sem pontuação, o que pode ser:

“Você não liga pra mim!” ou “Você não liga pra mim?” ou pior: “Você! Não liga pra mim!”

Tem que ter feeling.

Espero que em breve descubra-se um remédio certo, radar, simpatia, pajelança, sei lá, e assim poderemos viver em uma harmonia (?) ainda maior.

E quer fazer o favor de largar essa faca?!?

 

 

Crônicas sobre um casal

 

- Por que você não pergunta?... - sugeriu Laura.

- Por que seus pais tinham que mudar para Serra da Cantareira?!? - respondeu Sérgio, entre irritado e perplexo em ter concordado em visitar os sogros (principalmente a sogra) num domingo, em pleno verão e em dia de semi-final.

- Minha mãe queria estar num lugar mais bucólico, agora que os dois se aposentaram; e se você pedisse informações a alguém, nós chegaríamos mais rápido e...

- ...E eu estou seguindo as suas indicações. Pronto.

- Sabia que Moisés passou quarenta anos no deserto por se negar a pedir informações? - atalhou Laura.

- Sabia que Moisés era solteiro e fazia o que queria da vida, sem ter que visitar sogra em dia de semi-final?!? – provocou Sérgio.

- Moisés não era solteiro, herege! – Ela era católica fervorosa.

- Lógico que era! – Ele não estava nem aí.

- Não era, e... Olha! Biju!

- Que é que tem? – perguntou Sérgio sempre espantado com a capacidade das mulheres de mudarem de assunto tão facilmente – Você não vai querer biju agora,vai?

- Por que?

-Como por que?!? Simplesmente porque eu lavei o carro ontem!

- E daí? Eu estou com vontade. Posso? - A pergunta veio com um manear de cabeça. Era típico da Laura.

- Não no meu carro!

- No nosso carro!

- Tá bom - disse Sérgio concordando - mas já é hora do almoço e você vai perder a fome se comer porcarias. Agora ele estava apelando para o senso estético de Laura, que como toda e qualquer mulher, estava “precisando perder dois quilos”.

- Então eu compro e como depois. - disse já chamando o ambulante, que veio todo sorridente, mesmo debaixo de um calor ...- Dá um saquinho por favor. E onde fica a Av. Sezefredo Fagundes?

- Olha (agora era o ambulante falando), cêis tão meio longe, mais é só quebrá a próxima direita... A explicação parecia não ter fim, nem o passeio, que aliás, nem de longe fazia jus ao termo. Era semi-final...

Continuaram. Sérgio agora sentia um começinho de fome, mas não podia dar o braço a torcer e comer biju no carro que ele lavou ontem, ora essa!

- Acho que agora está perto - acalmou Laura - percebendo o avanço das horas, o sol a pino e a cara de fome de Sérgio, que não ia dar o braço a torcer e abrir o biju. Nem ela por já ter perdido a vontade de comer biju.

- Bom, só falta sua mãe ter preparado dobradinha. – resmungou o marido.

- Imagina...

- Como imagina? Seu pai adora e eu detesto. Quer melhor motivo?

- Não sei por que você não come. É bom.

- Quem come aquilo come carpete! E você também não gosta!

- Não é que eu não goste...  Eu estou querendo...

- Perder dois quilos, eu sei.

O “passeio” prosseguiu e eles chegaram à casa dos sogros de Sérgio, após mais algumas voltas e o saquinho inteiro de biju.

- “Dane-se o carro, depois eu limpo.” – pensou ele.

- “Dane-se os dois quilos, depois eu corro na academia.” – Considerou ela.

- Ooooooi filha, que demora - disse a sogra abraçando efusivamente a filha e nem aí pro genro - Nossa, como o carro de vocês está sujo... Ainda bem que vocês chegaram; eu estava preocupada e a dobradinha está esfriando!

Entraram.

- Oi filha! - disse o sogro já indo para a mesa - oi Sérgio! Seu time tá perdendo.

 

Como não?

 

- Como não???

- Não!

- De novo? Qual o motivo agora?

- Tô com dor de cabeça e o dia foi daqueles. – agora ela fora definitiva, e completou – E amanhã nós vamos ao Safári e temos que descansar.

- Laura, transar me deixa descansado! E faz duas semanas que nada, pôxa! – Sérgio estava de bico – Se fosse pra ficar sem transar, eu continuava solteiro - pensou.

- Boa noite! – Ela encerrou as apostas.

 

- Bom dia!!!!!!

- Pra quem? - resmungou ele baixinho.

- Vamos, mal-humorado, quero aproveitar o dia no Simba Safári.

- Agora se chama Zôo Safári – corrigiu ele, e ela não gostava de ser corrigida.

- Ou isso, o importante é que estamos indo!

- Tá... Eu queria transar... – pensou.

 

Chegaram. E como sempre, perto de lugares públicos, aquela aglomeração de ambulantes vendendo de amendoim para os animais a lotes residências dentro da área dos leões.

- Preciso comprar amendoim – disse ela com trocado nas mãos – Você quer?

- Pra quê? Você vai estar com dor de cabeça à noite!

- Pá-ra! Que obsessão! Só pensa nisso!

- Se eu “tivesse” isso, não precisaria ficar pensando!

E foram entrando no parque, cheio de animais soltos, que se chegavam no carro ávidos por amendoins, pedaços de pão, etc.

- Olha! – exclamou ela – Quantas antas!

Sérgio não se conteve:

- Anta é você! – gritou – Aquilo são EMAS!!!

- Ah!... Você entendeu! E aquilo é um avestruz?

- É. E tá vindo pra cá. Me dá um amendoim. Vem, vem...

E o bicho veio já enfiando a cabeça dentro do carro, tentando pegar o amendoim com o bico, mas o amendoim caiu no meio das pernas do Sérgio.

Aí foi um pega-pra-capá...

Era o avestruz bicando as pernas do Sérgio, o Sérgio segurando o pescoço do avestruz, a Laura gritando com os dois, o avestruz querendo o diabo do amendoim e o Sérgio querendo a morte!

De longe tinha um funcionário do parque que via a cena e que sempre achou aquele avestruz meio boiola. Foi lá, deu um “Passa!” no bicho, mas olhou o casal de canto de olho.

- Que mais?!? Que mais?!? – berrou Sérgio.

- Calma, amor... Machucou?

- Lógico! Já não sabia do que esse bicho estava atrás!!!

- Vamos em frente, agora vem os macacos e os vidros ficam fechados, deixam só um espacinho.

Mas o dia prometia. O “espacinho” era de uns dois dedos e foi o suficiente para outro fuá.

Um macaco enfiou o braço pelo vão e agarrou o cabelo de Laura.

- Aaaaahh!!!!! Tira! Tira! Aaaaaahh!

- Péra, péra!!!

- Aaahhhh!!! Ele agarrou meu sutiã!!!!! Vai arrebentar!!! Tira ele daí!!! Aaahhh!!!!! Sérgio, faz alguma coisa!!!!

- Agora fala pro macaco que você tá com dor de cabeça! Que o dia foi péssimo! Fala!

- Aaahh!!!

- Pronto! Tirei! Fecha o seu vidro. Mas é assim que eu me sinto quando mexo no seu sutiã...

Laura estava às lágrimas, com o cabelo desgrenhado, o sutiã arrebentado e a blusa torta; Sérgio estava com a virilha em pandarecos, suando em bicas, e o mesmo funcionário achou que agora o casal estava de sacanagem. Pediu que se retirassem do parque. Para não dar mau exemplo.

 

- E aí... Vamos transar? – perguntou Sérgio.

- Você tá maluco? Depois de tudo isso? – implorou Laura.

- Graças a Deus!!! – disse ele – Estou em frangalhos!

- Boa noite.

- Boa noite.

 

 

Baratas

 

Aaaaarghhhh! Brrrrllrrr!!!!

Não sei porque resolvi falar disso, meu Deus!

Não, não, me desculpem, não foi Ele quem criou aquilo. Aquela “coisa” foi obra de outra pessoa.

É que outro dia eu estava sonhando com um outro fato na minha vida. Uma “coisa” olhou pra mim!

É! Olhou!

Ela não estava fugindo ou voando – se é que aquilo é voar – ou ainda na rua andando pra lá e pra cá.

Eu estava no Guarujá, no apê da minha namorada, recolhendo o lixo dos banheiros (tá pensando o quê?), e quando eu abri a porta de um dos banheiros eu vi uma “coisa” no chão, já de pernas pro ar e estática.

Ela era grande.

Pra vocês terem uma idéia, ela tinha o símbolo do patrocinador na asa e eu acho que uma das listras do abdômen era uma faixa preta de alguma arte marcial, sei não...

É claro que eu não entrei (tá pensando o quê?). Fiquei parado uns cinco ou seis minutos decidindo o que fazer...

Se eu entrava no banheiro pra tirar o lixo e a “coisa”  junto, se eu pisava na coisa (aaaaaarghhh!!!!), se eu pegava o carro e voltava pra São Paulo, ou o quê.

Bom, pra não haver surpresas eu joguei outro saquinho de lixo que estava em minha mão perto dela, da “coisa” – eu fico falando “coisa” porque eu não gosto nem do nome bar...

Quando o saquinho caiu perto dela, ela começou a se mexer.

Primeiro as antenas (iiirrrrccc!), depois as pernas

(uuuurrghh!!! ), mas aí...

Aí...

A “coisa” mexeu a cabeça e olhou pra mim!!!!! Aaaaaaarrrghhh!!!!!!!!

A primeira coisa a fazer nessas horas é gritar. E eu dei um berro gutural que assustou minha namorada, o filho dela, os vizinhos, e eu acho que até a polícia local.

Agora eu sonho com essa cena... É triste, eu sei, e eu não tenho com quem falar.

Não existem grupos de ajuda para pessoas iguais a mim...

Depois do incidente minha namorada me olha torto, questionando minha masculinidade...

E olha que depois disso eu pus dois bandidos pra correr e enfrentei um pitbull fugido, mas não adianta... Estou marcado com a marca da vergonha...

Mas sou assim mesmo!

Faço escândalo, faço cena e depois peço perdão ao padre no confessionário, porque não fica bem um cara da minha idade atravessar a Av. Faria Lima à noite, correndo, aos berros, com as mãos na cabeça, sem olhar pros lados por causa de uma “coisa” voadora.

Foi um outro caso...

Síndrome do Pânico, problemas em outra encarnação, sei lá...

Ah! A “coisa”  do Guarujá ficou lá de pernas pra cima! Eu só fechei a porta. Tá pensando o quê?

 

Domingão

 

   - Ah, não! Trânsito aqui, não. Era só o que me faltava!

   - Calma amor... Já, já passa - Laura fez aquela cara de paciência, mesmo forçada, porque sabia que  Sérgio não tinha a menor.

   - Mas aqui é lugar? - ele já tinha perdido a paciência. - A única avenida desta cidadezinha de menos de cem habitantes com o trânsito parado?!? E ninguém põe placa, avisa...

   - É quase carnaval, calma...

   - Carnaval foi o nosso almoço, com esses dois aí atrás!

   Os dois lá trás eram um sobrinho dele e um dela. O dele de cinco anos e o dela de sete. Cada um devia ter lá pelos vinte quilos e pouco mais de um metro, mas juntos pareciam ter quarenta quilos de plutônio ativado e grandes como dois zagueiros. Fizeram uma zona no restaurante que a Laura jurou que nunca mais iria lá ( por vergonha ), e o Sérgio jurou que seus pensamentos mórbidos eram só pensamentos.

   - Mais um domingo perdido... - pensava ele. - Eu poderia estar vendo um joguinho, deitadinho com minha mulher, ou somente lendo um jornal, mas nããão... Eu tenho que concordar em visitar a tia dela no interior, daquelas que só se lembra quando morre outra tia e não tem túmulo disponível, tipo: “Morreu fulana, e agora? Agora tira a tia Gherta e põe fulana...”, com duas crianças e uma semana antes do Carnaval! Eu sou uma besta!

   - Pelo menos minha tia gostou de ver a gente... Tão velhinha. E as crianças, então? Você viu? Ela tinha lágrima nos olhos! - A Laura sempre se derretia com esses encontros em família. - Eles se comportaram bem, pelo menos na casa dela, e agora estão dormindo... Olha que bonitinhos.

   - Eu já disse pra minha irmã que eu vou comprar clorofórmio antes de um passeio desses. Se é que vai ter outro!

   - Dá uma parada naquele posto. A gente descansa, toma alguma coisa, vê se eles não querem ir ao banheiro e pergunta o porquê deste inferno de trânsito! - até ela já tinha perdido a paciência.

   - Boa tarde! Completa - disse ela ao frentista. - O senhor sabe me dizer por que está tudo parado?

   - Ah, é só o desfile de um bloco de carnaval - respondeu o homem. - Já, já acaba.

   - Mas por que um desfile de carnaval uma semana antes do carnaval? - perguntou Laura, esticando o pescoço até a janela.

   - É um desfile de bloco gay - disse o homem. - Quem quer se veste de mulher e vai.

   - Peraí! - era o Sérgio, pê da vida. - Quantas pessoas vivem nesta cidade?

   - Mais ou menos três mil - Respondeu o frentista.

   - E quantas pessoas estão pulando naquele bloco?

   - Umas mil...

   - Então só tem viado nesta cidade?!?!?

   - Ainda bem que o trânsito andou - disse Laura mais tarde, já no sofá de casa.

   - Ainda bem que aquela lata de cerveja bateu no outro carro! - lembrou Sérgio.

   - Imagina se aquele frentista acende aquele isqueiro?!? Aquilo foi pergunta que se faça?

   - Fiquei nervoso. Já passou. Pena que a tampa do tanque de gasolina caiu e vazou um monte na lataria. Tomara que não manche.

   - Bom, passou - disse Laura. - Vamos dormir.

   - Vamos. Peraí. Você viu meu celular?

   - Não... Não vai me dizer que você...

   - É - Disse ele já pondo a calça jeans e pegando a chave do carro. - Esqueci na casa da sua tia!

 

É hoje

 

   - Hoje eu me dou bem! - Gouvêia estava em êxtase. - Meu amigo vai trazer duas garotas de Minas pra sair com a gente!

Seu Geraldo escutava e só concordava com a cabeça. Era o porteiro do prédio e às vezes se sentia como aqueles garçons de música brega, que escutam as lamentações dos fregueses. E só olhava...

   O último ano tinha sido ruim pro Gouvêia; começara mau no revellión  e foi se arrastando com pequenas melhoras.

   - Hoje rola! Hoje eu me acabo!

   E o seu Geraldo só olhando...

   À tarde foi aquele ritual: banho, barba, pêlo do nariz, unha... Tudo lavado, aparado, perfumado e contado. O dinheiro, lógico. Hoje merecia um gasto a mais. Gasto não, investimento

   O amigo chegou com um atraso de vinte minutos e duas unhas a menos do Gouvêia.

   - Oi! – disse uma.

   - Tudo bom? - disse a outra.

   - E aí?

     Opa! A voz era de homem! Alerta geral! O amigo trouxe as duas amigas e um amigo. Que amigo da onça!

   - Que que é isso? - perguntou de canto o Gouveia. - Você me trouxe outro cara?!?

   - Calma... Ele joga no outro time.

   - Juventus?

   - Não! Ele é gay! Só veio pra conhecer a cidade.

   - Ufa!

   - Vamos? – perguntou uma.

   - Aonde? – emendou a outra. - Quero ir a um lugar chique.

   - É! Nós conhecemos um outro amigo que está sempre num lugar super legal.

   - Mas que diabos que hoje todo mundo tem amigo – pensou Gouveia.

   E foram. E foram num lugar caro pra chuchu! O prato de entrada era mais caro que a TV do Gouvêia.

   - Calma! – dizia o amigo. - Vale o investimento. As gatas estão que é pura lascívia!

   Acabaram. Pagaram uma conta que parecia o PIB da Nicarágua e foram dançar.

   No táxi o amigo e uma das amigas começaram uns amassos.

   - Hoje eu me dou bem! Tem que dar! – o Gouvêia só de olho na outra e o gay de olho no Gouvêia.

     Pra entrar no lugar era outra fortuna. O Gouvêia já estava pensando em vender o DVD.

   - Hoje eu me dou bem! – ficava repetindo na cabeça. - Hoje eu me dou bem! Dicas de neurolingüística. Sei lá.

   Pensou no DVD. Pegou a comanda de consumação. Dava pra desistir. Pensou no DVD de novo. Começou a girar a catraca. Tclec! Girou a catraca.

   - Meu DVD... Mas hoje eu me dou bem!

   - Máááááárioooo! – gritou uma das amigas.

   Gouvêia olhou pra trás e achou que tinham apontado um holofote pro cara, ligado uma trilha sonora, jogado purpurina... O cara brilhava!

   Alto, loiro, sorriso de cinqüenta e quatro dentes. As garotas abraçaram o cara visivelmente  adorando tê-lo encontrado e entraram na festa. O Gouveia só pensou no DVD.

   O amigo se deu bem. O Mário também. O gay desistiu do Gouvêia por outro cara da festa. Só o outro era gay, mas feriu o orgulho!

   Gouvêia esperou até as quatro por um ônibus.

   Chegou no prédio segurando uma garrafa de pinga e falando qualquer coisa, enquanto tentava chamar o elevador.

   - Hoje eu me dou bem! – soluçou.

   E o seu Geraldo só olhando...

 

 Refeições

 

   É  uma linda tarde de domingo e eu vou almoçar a qualquer momento. Em casa, tranqüilo, sem me preocupar com qual garfo devo segurar o bife, peixe ou o que for servido.

   Já deve ter acontecido com você. Você vai a uma festa chique de um amigo que não via a tempos. Pode ser o casamento daquela prima metida a grã-fina – e que ela tomou aulas de etiqueta antes da festa, ah tomou!

   Bom, lá estou eu num jantar onde servem uma baita salada de alface americana com rúcula, alcaparras e umas folhinas coloridas. Parece confete.

   Vou direto com o garfo e a faca na alface mas sou impedido pela minha mãe – que estudou em colégio feminino – com um olhar de reprimenda e me diz sorrateiramente que a alface deve ser “dobrada” e enfiada toda na boca.

   Começo a empreitada.

   Passam-se três minutos e eu finalmente ponho a dita na boca, e, quando estou para comemorar com meus botões a folha abre inteira, violentamente, e eu cuspo cinco alcaparras que pus junto para economizar tempo. Vexame.

   Tiram o prato e eu me sirvo de peixe no suplá. Nem sabia que aquele pratão de prata era só para apoiar o prato de porcelana e sou imediatamente corrigido pelo garçom, que também me olha torto.

   Tento pegar um pouco de molho com o talher de peixe – que eu achava que fosse uma mistura de faca e colher mal-feita – e o sorriso da minha namorada vacila. Aquilo não é uma mistura de faca com colher e é para cortar o peixe no sentido oblíquo. Acabo.

   Estou suando em bicas.

   O garçom – que não olha mais pra mim- põe uma bola de sorvete de limão dentro de uma taça que parece taça de licor de tão pequena!

   - Que miséria de sobremesa... – comento baixinho e minha mãe, disfarçando as lágrimas, me diz que aquilo é um “sorbet”, e é usado para tirar o gosto do peixe da minha boca, preparando-a, assim, para o que vem a seguir.

   Eu digo que seria melhor não servir o que não é pra deixar gosto e todos à minha volta riem. Não sei porque...

   Finalmente o prato principal.

   Eu me arrependo de não ter arrebentado no peixe!

   Era um filé de “veal” – não pensem besteira porque é carne de vitela – do tamanho da minha unha, todo enfeitado com um “molhinho” quase azul ( não comi! ), e folhas de alecrim com sei-lá-o-quê. Não dava pra tapar a minha cárie.

   A sobremesa era uma mousse quase roxa, que eu nem quis do quê. Fechei os olhos e pus pra dentro. O garçom não sabia se me batia ou se me adotava. Minha mãe quis me deserdar e minha namorada achou um jeito de não falar comigo o resto da festa.

   Fiasco total.

   Da próxima vez que me convidarem para um jantar ou almoço desses, eu digo que estou de dieta, ou me acabo nos canapés, ou passo numa lanchonete e detono um x-bacon antes de chegar. Vai me poupar de muito constrangimento!



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